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[nettime-lat] Antropologia Selvagem
h.d.mabuse on 27 Sep 2000 07:26:28 -0000


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[nettime-lat] Antropologia Selvagem


O estrago que foi feito com a tribo Ianomani pelo Antropologo Napoleon
Chagnon publicado com farta documentação:


Antropologia selvagem
Por Marcos Sá Correia
http://www.no.com.br/servlets/newstorm.notitia.apresentacao.ServletDeNoticia?codigoDaNoticia=9437&dataDoJornal=969492950000


Quase tudo o que o mundo pensa dos Ianomami deve ao antropólogo
Napoleon Chagnon, que os estudou nas selvas da Venezuela por mais de
35 anos. A partir da semana que vem, o que o mundo pensará de Chagnon
vai ficar devendo ao jornalista Patrick Tierney. Em livro que está a
caminho das livrarias nos Estados Unidos, ele conta que o antropólogo,
durante a pesquisa, fez turismo sexual com as adolescentes da tribo,
provocou guerras entre suas aldeias para animar um documentário sobre
seus combates, traficou com políticos venezuelanos licenças de
mineração para explorar ouro em território indígena e estimulou entre
eles uma experiência de limpeza étnica que, usando vacinas
contra-indicadas para populações sem contato anterior com a doença,
dizimou os ianomami numa epidemia de sarampo provocada por erro
médico.

O livro de Tierney, Darkness in El Dorado - ou seja, "Treva no
Eldorado" – sai nos Estados Unidos em outubro. Mas suas ondas de
choque já começam a balançar a comunidade internacional dos
antropólogos, que pela primeira vez se sentem investigados como
selvagens. "Este livro sacode os alicerces da antropologia", avisa uma
flecha disparada via internet para a presidência da Associação
Americana de Antropologia. "Não é exagero dizer que este é, de longe,
o caso mais escabroso em toda a história da Antropologia", escreve o
professor Leslie Sponsel, da Universidade do Havaí, reconhecendo que o
livro "expõe de maneira cândida e sistemática, com ampla documentação,
os dados, interpretações e a ética dos antropólogos que construíram e
divulgaram a imagem feroz dos ianomami".

Tierney farejou por mais de dez anos os rastros de Chagnon e a trupe
de jornalistas, cientistas e charlatães que, segundo ele, formaram a
comissão de frente da destruição da Amazônia. Não poupou sequer os
críticos do antropólogo, como o etnógrafo francês Jaques Lizot, cujo
trabalho na tribo serviu sobretudo para que recrutasse harém de
meninos. Outros antropólogos, seguindo as pegadas de Chagnon,
mantiveram durante décadas o costume de encenar lutas entre os índios
para mostrar a visitantes sua belicosidade. E pesquisadores da
Comissão de Energia Atômica inocularam o sangue dos inanomami com
isótopos radioativos para estudar seus efeitos em condições ideais de
pureza.

Foram os testes de radiação que, segundo Tierney, aproximaram os
caras-pálidas daqueles índios. Marcel Roche, geneticista venezuelano
formado nos Estados Unidos por conta da Agência de Energia Atômica,
voltou ao país depois da Segunda Guerra para aplicar-lhes as primeiras
injeções de isótopos. Atrás dele, chegou o geneticista James Neel, que
compôs com Chagnon uma parceria ideal para promover os ianomami a
animais de laboratório.

Neel era um profeta tardio da eugenia. Na selva venezuelana, sua
crença no melhoramento genético da humanidade aparentemente o
estimulou a patrocinar a campanha de vacinação que devastou a tribo. A
vacina, do tipo Edmonson B, baseia-se num vírus tão agressivo que,
mesmo em organismos carregados de anticorpos, só deve ser aplicada com
cuidados especiais. Tudo indica que no caso eles deliberadamente
contrariaram os aviso médicos. Depois que a epidemia se espalhou,
deixaram de socorrer os doentes, por ordens de Neel, que proibiu os
observadores de se comportar como agentes de saúde. Ele estava entre
os ianomami em busca de evidências para a hipótese de que, em grupos
primitivos, os machos abençoados com os genes da liderança matam mais
inimigos e se acasalam com maior número de mulheres, contribuindo
naturalmente para o aperfeiçoamento da espécie. Pelo visto, achava que
o sarampo derrubaria de preferência os mais fracos, detendo-se diante
dos mais fortes na barreira inata da superioridade genética.

Pode ser coincidência, mas Chagnon, que entrou em campo pelas mãos de
Neel, acabou pintando os ianomami com um povo de guerreiros
prolíficos, onde os homens mais briguentos acasalavam mais e geraram
mais filhos. Em dupla, o antropólogo e o geneticista fizeram o
estrago. Chagnon tornou os inanomami mundialmente famosos num livro
que, apesar de acadêmico, vendeu mais de um milhão de cópias. E
Tierney, antes de levantar sua trilha, escreveu sobre sacrifícios
humanos em The Highest Altar, um livro que a National Geographic
transformou em documentário para a televisão.

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h.d.mabuse
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